sexta-feira, 29 janeiro, 2010 - 13:06

Música no silêncio

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No Centro Integrado de Ensino Especial (CIEE), na 912 Sul, jovens com diferentes graus de deficiência auditiva se reúnem semanalmente para tocar instrumentos de percussão. Não só tocam como dançam e cantam seguindo a cadência e o tom, sem contrariar os mais afinados dos ouvidos. Eles fazem parte do Surdodum, projeto desenvolvido e coordenado há oito anos por Ana Lúcia Soares - ex-cantora de banda de percussão com experiência em magistério e formação em fonoaudiologia.

Se música é a combinação de silêncio e som, para eles é a intercalação de pausa e vibração, sensação. O som que sai do batuque dos tambores se propaga pelas paredes, palco e corpo. É assim que eles seguem o ritmo, sabem reconhecer quando erram o compasso ou saem do tom. Técnica que tornou possível a realização do sonho da vocalista Luciana Lima, 26 anos. ‘‘Desde pequena sonhava em ser cantora. Mas não pensava que fosse se concretizar'', diz. Ela está entre os integrantes que têm condições de falar perfeitamente. Isso porque trabalharam a oralidade desde pequenos.

O nome Surdodum foi escolhido pelos próprios integrantes. ‘‘Quem deu o nome foi o Clésio, um dos percussionistas'', conta Ana Lúcia. ‘‘Como todo bom baiano, ele viu o Olodum na televisão e ficou louco para montar um grupo igual'', lembra.

O grupo é composto por portadores de necessidades especiais/surdez em sua maioria. São seis percussionistas e dois vocalistas que contam ainda com a ajuda de quatro voluntários na parte de harmonia e um na percussão.

Sob as mãos ágeis dos percussionistas, qualquer estilo ganha ritmo de percussão. Desde MPB, rock, baião e maracutu até salsa e funk. Além de fazer releituras, eles também interpretam composições próprias, de autoria do guitarrista Arnaldo Barros. São letras sobre o silêncio, como Libras, a Língua Brasileira de Sinais, Além do silêncio e Na batida do silêncio. Essa última deu nome ao CD demo do grupo.

Em seus oito anos de trabalho, o Surdodum, além de se apresentar em vários eventos, abriu show do Cidade Negra e Leci Brandão, tocou no mesmo palco do Olodum, participou dos programa do Fábio Júnior, da Sílvia Poppovic e foi à MTV. Em outubro, parte do grupo - Ana Lúcia, três integrantes e dois voluntários - seguirá para Portugal para participar do I Seminário Luso-Brasileiro de Jovens Músicos Surdos. O grupo inteiro foi convidado, mas a falta de patrocínio impossibilitou a ida de todos. Dois integrantes conseguiram patrocínio para as passagens, mas os outros terão de pagar.

‘‘Segundo os organizadores, somos referência mundial nesse tipo de trabalho por ser um grupo formado por surdos em sua maioria'', conta Ana Lúcia, que juntamente com seus alunos ministrará workshop para os participantes do seminário. Se todos do grupo pudessem ir, o Surdodum também tocaria no encerramento do evento, num espetáculo para a cidade inteira.

CONTATOS: 9984-4574 (Ana Lúcia, coordenadora)

Fonte: Naiobe Quelem - Correio Brasiliense - 08/09/2003

Pesquisado pela voluntária online Emília Maria Jorge. Muito obrigada Emília!

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